sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Gordo Paga Mais

A gente vive em um mercado de livre concorrência ou o quê? O que é isso da ANAC sugerir às companhias aéreas a largura das poltronas, o espaçamento entre elas? Daqui a pouco o Jobim vai dizer que só pode servir amendoim da marca X, e não da marca Y. O papel da agência reguladora, no meu entendimento, é verificar se há abusos em relação ao consumidor, não ditar as regras do mercado. E no Brasil é sempre assim, nunca conseguem acertar no alvo: estão sempre atirando para os lados. Na época do Waldir Pires a ANAC era subserviente às companhias aéreas, agora ela é o terror das empresas.

Eu vou dizer como funciona aqui nos EUA, que tem um mercado de aviação no mínimo 10 vezes maior que o Brasil: há classe executiva em qualquer aviãozinho regional. Você sai daqui de NY e vai para Washington (menos de 1 hora de vôo), e há classe executiva. Uma vez perguntei a um amigo: quem é otário de pagar classe executiva para voar menos de 1 hora? E ele me respondeu: olha só, o mundo está cheio de otários, olha lá aqueles caras na executiva. Tem gente que paga, pois é, graças a Deus para a economia que o mundo está cheio de "otários".

Então Jobim, se os gordos e os altos precisam de mais espaço, que paguem a executiva. Não é justo que eles paguem o mesmo preço de uma pessoa normal, afinal de contas consomem mais combustível e mais espaço, correto? Segue reportagem:

Da AE - "Depois das críticas feitas pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao pouco espaço reservado para os assentos nos aviões, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) instaurou ontem consulta pública para definir novas regras e ampliar as poltronas de passageiros. Na exposição de motivos, a Anac afirma que a aprovação das novas poltronas garantirá que "a instalação entre os assentos de passageiros em aeronaves proporcionará um nível de segurança adequado ao ocupante, bem como benefícios ao passageiro, operador e à economia brasileira".

O aviso de consulta pública foi publicado no Diário Oficial da União de ontem e é assinado pelo presidente da Anac, Milton Zuanazzi. Valerá para aviões com capacidade para 100 ou mais passageiros. A medida deixa claro que já passaram a prevalecer no órgão as posições do ministro Nelson Jobim, que recebeu carta branca do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tomar as decisões que considerar necessárias para resolver a crise do sistema aéreo nacional.

Pelo estudo da Anac, seriam criados duas subclasses dentro da classe econômica dos aviões. Os "assentos diferenciados tipo 1" seriam destinados a pessoas consideradas obesas - com índice de massa corpórea acima de 40 kg por metro quadrado, o equivalente a uma pessoa de 1,70 m e 115 quilos. Já os "assentos diferenciados tipo 2" teriam como público-alvo pessoas com estatura superior a 1,90 metro. Em ambas as configurações, a distância entre as poltronas seria de 81,28 centímetros. Hoje, as grandes empresas adotam, em média, 77,5 cm. A agência propõe que a largura desses assentos seja de 46,99 cm - ante os atuais 30,48 cm. Seriam quatro poltronas do "tipo 1" e outras quatro do "tipo 2". As demais seguiriam a especificação limite - 68,58 cm de distância."

9 comentários:

Cláudio disse...

Seria surreal se fosse em qualquer outro lugar. No bananão isso é business as usual.

Blogildo disse...

Eita nós! Parece até um episódio de Twilight Zone!

Funes, o memorioso disse...

De Lisboa ao Porto são 300 Km. De avião, são cerca de 30 a 40 minutos.
Outro dia, apanhei o múltimo avião de Lisboa para o Porto, às 23h e 15 m.
Na sala de embarque encontrei dois antigos colegas. Cumprimentaram-me vagamente com nojo e continuaram a sua conversa sobre o Nasdaq e o Nikei, como se fossem grandes investidores. São apenas meros subalternos num banco subalterno português.
Pouco depois, chegaram à sala de embarque, juntos, o CEO do BPI, o segundo maior banco português, O Presidente do Conselho de Administração de uma das maiores cadeias de televisão portuguesa e um advogado famoso, ligado ao maior grupo económico português.
Na hora de entrarmos no avião, os três cavalheiros acabados de referir foram para a classe económica. Na executiva viajaram apenas os pés rapados dos meus colegas.
A verdade é que só os ricos se podem dar ao luxo de viajar em económica.

PATRICIA M. disse...

Funes, nao poderia citar um exemplo melhor.

Vale o velho ditado, tambem aqui: para ser rico nao basta ganhar mais, eh preciso gastar menos.

Ah, ia me esquecendo: aqui nos EUA a maioria das pessoas faz upgrade da economica para a executiva usando milhagem. Mesmo assim, acho uma idiotice total fazer isso em voos curtos.

Fábio Mayer disse...

O problema todo é que é arraigado por aqui o discurso demagógico da "igualdade". Quando é para ter vantagem pessoal, brasileiro sempre se acha igual a todo mundo e não raciocina em termos econômicos, buscando socializar suas desvantagens.

Mas quando é pra levar vantagem não tem igualdade coisa nenhuma né?

Gordos e altos me desculpem, mas esse "debate" é ridículo!

Adequando os aviões para eles, todos os usuários pagarão mais, mas parece que o discurso da "igualdade" é mais atraente que o prejuízo para a economia do país.

PATRICIA M. disse...

Fabiao, pegou o espirito da coisa. Socializar prejuizos e se apropriar dos lucros. Por que os gordos e altos nao pagam a executiva, ja que querem mais conforto? E se eu disser que tenho 1.90 na hora de comprar a passagem e na verdade nao tiver tudo isso, como eh que fica?

Eu tenho 1.68m hehe.

Marcus Mayer disse...

"Patricinha" (168),
o seu texto é corretíssimo! Como liberal (na concepção de Roberto Campos, José Guilherme Merquior etc. - não aquela da esquerda americana), naturalmente, uma interferência do estado numa questão dessas é para rir...

Meu acento preferido (vale como dica) é aquele que fica diante da porta de emergência, com espaço quase de "executiva", para meus 182.

A melhor solução para o problema é a abertura para mais empresas, que saberão ocupar o nicho daqueles que preferirão pagar um pouco mais pelo conforto. Assim é na Europa. Há companhias (menores) que estão explorando essa fatia do mercado. Algumas até mantém os preços das companhias maiores, mas para conquistar clientes, oferecem diferenciais que implicam mais conforto.

Um outro detalhe importante que contribuiu para o nosso caos aéreo foi o aumento do número de passageiros e uma redução de 366 para 230 "airplanes" em operação, depois do colapso da Varig e do fechamento da Transbrasil.

A Gol popularizou as viagens de avião através do sistema "low cost, low fare". Com isso, o conforto também diminuiu. E nas pontes aéreas inexiste a opção para classe executiva. ("otários" compridos como eu não tem vez)

A solução para o problema brasileiro está na extinção da reserva de mercado "xenófoba", que não permite que empresas estrangeiras atuem no mercado exclusivamente nacional. A livre concorrência e a demanda mercadológica resolveriam perfeitamente tudo isso.

Para encerrar, "Patricinha" (168) foi com carinho, please!

Fábio Mayer disse...

Patricia e Marcus,

Quando a Gol trouxe para o Brasil esse sistema, as demais companhias fizeram olho grande a ponto de, a única diferença entre elas, ser a refeição de bordo.

Todas elas com aviões idênticos por dentro, os mesmos espaços entre poltronas e o mesmo número delas. A Gol serve aquela barrinha nojenta de cereais, a TAM um sanduichinho meio frio e a falecida VARIG, esta sim, pelo menos, entregava uma refeição decente, mas progressivamente piorando, à medida que piorava a situação da companhia.

Só que o preço das pássagens da TAM e da VARIG não se alterou para ficar próximo das da GOL.

Enfim, o vício não está apenas nos usuários, as empresas também são adeptas doprincípio da "igualdade"...

João Batista disse...

Você conhece o método PT: criar dificuldades para vender facilidades (by Reinaldo Azevedo). O “terror” das empresas é show para a platéia, imbecilizada, que não percebe que pretendem tornar mais difícil viajar de avião. Se um dia o caos aéreo esfriar, voltam as facilidades, mas desta vez, com o devido preço: contribuição voluntária aos cofres do PT.