terça-feira, 3 de novembro de 2009

FIlhos, Melhor Não Tê-Los...

Minha avó teve 9 filhos, dos quais 2 morreram ainda crianças, com menos de 2 anos. Minha mãe teve 4 filhos. Eu não tive nenhum. Minha mãe foi dos vivos a sexta a nascer, e a primeira que nasceu em uma casa de cidade, com a ajuda de uma parteira. Eu e meus irmãos todos nascemos em hospitais. As duas crianças que morreram na fazenda se foram desse mundo por moléstias bobas, totalmente tratáveis hoje em dia.

O progresso chegou e não vai parar. As pessoas tinham filhos antigamente porque precisavam de mais braços pegando na enxada, ajudando a arar a terra. A agricultura hoje é totalmente mecanizada. Mesmo que você seja fazendeiro hoje em dia não há a necessidade de se ter filhos.

Nas cidades um grande número de filhos representa um problema. Como abrigar tantas pessoas em apartamentos minúsculos? A explosão populacional, aliada à migração para as cidades e ao aumento do preço da terra tornam as grandes famílias praticamente lembranças de um passado distante.

Na minha opinião há uma e apenas uma razão válida para se ter filhos: a vontade irresistível de se tornar imortal, passando o DNA para a frente. Economicamente não faz o menor sentido. Levando-se em conta que o preço de se viver está cada vez mais caro - naqueles bons tempos a mulher não trabalhava; hoje, são necessárias 4 mãos no batente para que a família possa ter um nível de conforto adequado - e que ter um filho é como fazer uma aposta no futuro em que os resultados podem ser, na melhor das hipóteses, 50% de chance de ele se tornar mais rico do que eu, 50% de chance de ele se tornar mais pobre do que eu, descontando-se os fluxos de caixa que serão usados para a manutenção de um filho por no mínimo 18 anos, prefiro colocar esse mesmo dinheiro hoje em dia em um bom fundo de renda fixa e usufruir dele na minha velhice. Gostaria ainda de ressaltar que dentro dos 50% de chance do filho tornar-se mais rico que os pais ainda há que se levar em consideração o fato de ele querer ou não ajudar os velhos em caso de necessidade - há sempre o Estado ali para isso, com uma aposentadoria bem pequena, é verdade, mas há. Digamos que filhos desalmados são raros em países latinos - isso está mudando - então a probabilidade de se usufruir da riqueza do filho - termo feio esse, prefiro usar a expressão "a probabilidade de vir a recuperar os fluxos de caixa investidos no futuro" cai para 50% x 75%, igual a 37.5%.

Concluindo, ao contrário do que diz o Funes, só devemos ter filhos hoje em dia se realmente sentirmos que o nosso DNA é essencial ao mundo. De resto, é meter as fuças no trabalho - qualquer que seja ele - e tocar a vida adiante. Que já não é fácil, repito.

P.S.: o Poema Enjoadinho, de Moraes, segue aqui. Na minha crise de meia idade, estou ainda a decidir se vale a pena.

11 comentários:

Funes, o memorioso disse...

Patrícia,

No essencial, eu estou de acordo consigo. O meu post não pretendia ser normativo ou prescritivo. Eu limitei-me a descrever uma realidade passada que me parece ir repetir-se no futuro (sem segurança social, as pessoas tenderão de novo a ver nos filhos o seu seguro de vida). Não pretendi nunca dizer que esta evolução era boa ou desejável. Não pretendi emitir nenhum juízo de valor sobre ela. Parece-me só que vai ser assim, ponto final.
Concordo absolutamente consigo, quando diz que muitos filhos é próprio de uma sociedade agrária, não urbana. O que também me parece é que tendo, na Europa, a pobreza aparecido para ficar, o mais provável é que uma grossa fatia dos europeus urbanos regressem ao campo, de onde saíram há 50 ou 60 anos os seus avós. Em tempos de crise, o campo é mais seguro.

Fábio Mayer disse...

Concordo, hoje em dia, filho = despesas.

Mas o fato é que o mundo ainda não percebeu que essa inversão demográfica exige equilibrio fiscal dos governos para manter os sistemas previdenciários, que serão cada vez mais deficitários no futuro, em razão da menor população ativa.

Respeito a opinião de quem pretende ter filhos, desde que os façam conscientemente. Aqui no Brasil, a quantidade de crianças indesejadas, feitas por irresponsabilidade e burrice (principalmente) é assustadora ma exata medida em que tais crianças não têm oportunidades na vida... são matéria-prima do crime.

Sofia disse...

Eu tenho três filhos. Espero ter mais.
Só um egocêntrico estúpido tem filhos para perpetuar a si mesmo (e o planeta está cheio deles, eu sei)! Eu os tive porque o destino nos surpreende.
O casamento, os filhos, o correr riscos tem mais a ver com a vida do que com fluxo de caixa. E, como disse Cesare Pavese, "È bello vivere perché vivere è cominciare, sempre, ad ogni istante". No resto, dá-se um jeito.

Blogildo disse...

Sem problemas! Desde que os filhos de imigrantes árabes continuem sustentando a previdência, claro!

patricia m. disse...

Funes, era um teasing... :-)

O meu texto eh economico, o seu eh poetico. Fazer o que, cada um com os talentos que Deus lhe deu.

patricia m. disse...

Blogildo, o sistema de previdencia poderia ser melhor e todo mundo sabe disso: ao inves de nos pagarmos para nossos pais, e esperarmos nossos filhos pagarem por nos, deveriamos pagar por nos mesmos.

Ainda em paises de populacao crescente como o Brasil isso nao eh um problema, voce vai conseguir aposentar tranquilamente. Aqui na Europa as coisas sao realmente mais complicadas, principalmente na Italia e na Alemanha onde as populacoes decrescem. Anyway.

De qualquer forma, como detesto depender do Estado, e como nao estou investindo em filho, o negocio eh pegar esse dinheiro e colocar no fundo de aposentadoria.

patricia m. disse...

Sofia, meu problema eh que eu penso muito, planejo muito... E costumo ainda ser uma realista com tendencias pessimistas para o futuro da humanidade.

Sofia disse...

Patrícia,
Acho que filhos seus fariam muito bem ao mundo (e estou falando muito sério!). É o caso de perpetuação do dna que daria certo...

patricia m. disse...

Sofia, ai que mora o problema. Uma boa parte das pessoas como eu, que definitivamente contribuiriam para uma melhora sensivel no DNA do mundo, nao querem ter filhos.

Isso faz parte do meu pessimismo em relacao ao futuro. Eu sei que deveria fazer o meu "trabalho" "no matter what".

Enquanto isso, os africanos, os muculmanos, se multiplicam como coelhos na ravina. Uma tristeza só. Um mundo definitivamente pior no futuro, é isso que devemos esperar.

Sofia disse...

Como ratos, vai. Coelhos são fofos e simpáticos e tem utilidade culinária.

Blogildo disse...

Vc tem toda a razão. Esse modelo de previdência é insustentável.
De qualquer modo, a paternidade me traz sentimentos contraditórios. Não raro me pergunto: Onde eu estava com a cabeça quando concordei com a idéia de ter um filho? Logo, depois deploro esse tipo de pensamento e me perguntando o motivo de ter demorado tanto a decidir.

Enfim...se não tê-los, como saber?